A vários milhares de metros abaixo da superfície do mar, geólogos deram por si perante um vulcão submarino colossal que, durante muito tempo, foi interpretado como um conjunto de elevações independentes. Só com dados modernos de medição ficou claro o essencial: não eram “colinas” separadas, mas sim um único monstro contínuo de lava solidificada - maior do que qualquer outro vulcão individual conhecido na Terra.
O que surpreendeu os investigadores a 2.000 metros de profundidade
No Pacífico Norte, a cerca de 1.600 km a leste do Japão, encontra-se o chamado Planalto da Dorsal de Shatsky (Shatsky-Rücken-Plateau). Durante décadas, as saliências ali registadas foram tratadas por especialistas como uma série de vulcões distintos, discretos e sem grande destaque. Em cartas e mapas, apareciam como vários “altos” no fundo oceânico.
Uma equipa liderada pelo geofísico norte-americano William Sager decidiu reavaliar a área com mais rigor. Recorreu a medições sísmicas - isto é, ondas sonoras enviadas para o subsolo e depois recolhidas - para construir uma imagem tridimensional do conjunto. Foi aí que surgiu o pormenor que mudou a interpretação: os escoamentos de lava prolongam-se de forma contínua por toda a estrutura, sem quebras.
"O resultado: os supostos montes isolados pertencem a um único supervulcão, o Maciço Tamu - o maior vulcão individual conhecido da Terra."
A escala impressiona. O Maciço Tamu ocupa cerca de 120.000 milhas quadradas, ou seja, mais de 300.000 km². Para perceber a dimensão: é uma área aproximadamente equivalente à Alemanha e à Polónia juntas - e tudo isto corresponde a um único sistema vulcânico ligado.
Um vulcão que não se parece com um vulcão
Quando se fala em vulcões, é comum imaginar cones inclinados, como o Fuji no Japão ou o Etna em Itália. O Maciço Tamu é praticamente o oposto. Em vez de um pico bem marcado, parece uma “carapaça” de lava extremamente larga, com encostas muito suaves.
A zona do topo está a cerca de 6.500 pés, isto é, aproximadamente 2.000 metros, abaixo da superfície do mar. A partir daí, a estrutura desce ainda mais, atingindo profundidades de quase 6,5 km. A inclinação é tão reduzida que, se alguém pudesse - em teoria - colocar-se numa das suas encostas, dificilmente perceberia em que direcção o terreno desce.
Os geólogos classificam esta morfologia como um vulcão em escudo (Schildvulkan). A designação vem do aspecto: uma forma ampla e achatada que lembra um escudo pousado no chão. Regra geral, estes vulcões formam-se quando lava muito fluida extravasa, durante longos períodos, a partir de uma zona central e se espalha por grandes distâncias em todas as direcções.
"A área do Maciço Tamu é gigantesca, mas o seu perfil é quase discreto - um gigante geológico em modo camuflado."
Olympus Mons “cumprimenta”: concorrente terrestre para o gigante de Marte
A dimensão deste vulcão submarino torna-o um caso à parte. Num estudo publicado na revista Nature Geoscience, os investigadores comparam o Maciço Tamu com o vulcão mais famoso do Sistema Solar: o Olympus Mons, em Marte. Só este colosso marciano entra numa liga comparável em termos de escala.
O contraste com exemplos terrestres ajuda a sublinhar o quão fora do comum é esta estrutura. O Mauna Loa, no Havai, considerado o maior vulcão activo da Terra, tem “apenas” cerca de 2.000 milhas quadradas de área - o que faz do Maciço Tamu uma formação com mais de cinquenta vezes essa extensão.
O gigante submarino terá surgido há cerca de 145 milhões de anos, no período do final da era dos dinossauros. Os dados geológicos indicam, porém, que a fase de actividade foi relativamente curta. O sistema vulcânico libertou quantidades enormes de magma provenientes do manto terrestre, arrefeceu e entrou em repouso. Actualmente, o colosso permanece oculto sob sedimentos e sob a massa de água do oceano.
Porque este vulcão muda a nossa visão sobre o manto terrestre
Para a ciência, o Maciço Tamu não é apenas um recordista. A sua arquitectura oferece pistas sobre a forma como impulsos gigantescos de magma, vindos do manto, conseguem criar vastos planaltos oceânicos. Muitos modelos assumiam que estes planaltos resultavam da soma de inúmeros centros vulcânicos independentes.
A uniformidade agora demonstrada no Maciço Tamu sugere um mecanismo diferente: uma erupção enorme e relativamente breve, alimentada por uma câmara magmática de grande dimensão em profundidade. Episódios deste tipo podem ter tido efeitos marcantes no fundo oceânico, no nível do mar e até no clima.
- Local: Dorsal de Shatsky, no Pacífico Norte, aprox. 1.600 km a leste do Japão
- Tipo: vulcão em escudo submarino (Maciço Tamu)
- Área: cerca de 120.000 milhas quadradas (mais de 300.000 km²)
- Idade: cerca de 145 milhões de anos
- Estado: extinto, inactivo há muito tempo
- Profundidade do topo: cerca de 6.500 pés abaixo da superfície do mar
- Comparação: comparável em área ao Olympus Mons (Marte)
Estas grandes províncias ígneas (Large Igneous Provinces), de origem vulcânica e extensão enorme, são apontadas como potenciais motores de mudanças massivas no planeta. Podem engrossar a crusta oceânica, alterar correntes marinhas e, através de libertação de gases, contribuir para a emissão de gases com efeito de estufa. No caso do Maciço Tamu, esses acontecimentos ficaram muito para trás no tempo - mas as marcas ainda são detectáveis nas rochas.
Como se identifica um vulcão que não se consegue ver
Chegar ao fundo do mar é, para os geólogos, muito mais difícil do que estudar um vulcão em terra. Fotografia aérea e imagens de satélite têm utilidade limitada debaixo de água. Por isso, para localizar estruturas escondidas como o Maciço Tamu, é habitual combinar várias técnicas.
As principais ferramentas da geologia submarina
| Método | O que fornece |
|---|---|
| Reflexão sísmica | Ondas sonoras revelam limites de camadas e escoamentos de lava no subsolo |
| Gravimetria | Medição de pequenas variações da gravidade que denunciam estruturas muito massivas |
| Magnetometria | Dados do campo magnético ajudam a distinguir rochas vulcânicas de sedimentos |
| Navios de investigação com sonar multifeixe (Multibeam-Sonar) | Cartografia de alta resolução da topografia do fundo oceânico |
No caso do Maciço Tamu, o avanço decisivo veio sobretudo da reflexão sísmica. Nos perfis, os cientistas observaram escoamentos de lava a partir de um antigo centro, estendendo-se por distâncias enormes - sem interrupções. Com isso, a ideia de três corpos vulcânicos separados deixou de fazer sentido.
O que um vulcão pré-histórico tem a ver com o nosso dia-a-dia
À primeira vista, um vulcão submarino extinto há milhões de anos parece não ter ligação ao quotidiano. Ainda assim, estruturas deste género são úteis para avaliar melhor riscos actuais. Ao compreender como volumes gigantescos de magma sobem em profundidade e acabam por se libertar, torna-se mais fácil interpretar sistemas vulcânicos activos e zonas de hotspot.
Além disso, a modelação do fundo oceânico influencia, a longo prazo, correntes marinhas, ciclos de nutrientes e, por consequência, ecossistemas dos quais a pesca depende. Grandes planaltos conseguem desviar correntes e, assim, modificar padrões climáticos regionais. Vestígios desses processos são identificados por climatólogos em testemunhos de perfuração recolhidos no fundo do oceano.
Conceitos que vale a pena conhecer
- Vulcão em escudo (Schildvulkan): vulcão muito largo, com encostas suaves, construído por escoamentos de lava pouco viscosa.
- Vulcão submarino: vulcão totalmente abaixo da superfície da água. Muitos permanecem por descobrir.
- Manto terrestre: camada rochosa entre a crusta e o núcleo. É daí que ascende o magma que alimenta vulcões.
- Câmara magmática: cavidade ou zona em profundidade onde se acumula rocha fundida.
O estudo destes mega-vulcões também ajuda a interpretar melhor planetas vizinhos. Ao reconstruir a formação do Maciço Tamu, obtêm-se pistas para responder a perguntas sobre o Olympus Mons e outros vulcões em Marte ou Vénus. Vários processos podem ser semelhantes, mesmo que a gravidade e a atmosfera nesses mundos actuem de forma diferente.
No fundo, esta descoberta lembra o quanto ainda desconhecemos sobre o nosso próprio planeta. Uma grande parte do fundo dos oceanos continua apenas cartografada de forma grosseira. É perfeitamente possível que existam outras estruturas gigantescas à espera de medições mais detalhadas - discretas, profundas e, ainda assim, determinantes para a história da Terra.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário