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Como caranguejos dos mangais na Colômbia transformam microplástico em nanoplástico no Golfo de Urabá

Caranguejo marrom na areia submersa com peças verdes e um prato de marisco ao fundo à superfície da água.

Numa zona de mangal da Colômbia fortemente contaminada por lixo, investigadores identificaram um mecanismo que até especialistas consideram surpreendente: pequenos caranguejos dos mangais trituram microplástico no sedimento, transformando-o em partículas ainda mais pequenas, de nanoplástico. Mais tarde, essas partículas podem entrar em peixes, camarões e outros animais marinhos - e, por essa via, chegar também à alimentação humana.

Lama, plástico e caranguejos: a tempestade perfeita no Golfo de Urabá

A investigação decorreu em Turbo, uma cidade portuária no Golfo de Urabá, no noroeste da Colômbia. Ali, os mangais estão cobertos por uma camada espessa de resíduos plásticos. Entre garrafas, sacos e fragmentos resultantes do desgaste de embalagens, os chamados fiddler crabs (frequentemente designados em português por caranguejos-violinistas, também conhecidos como caranguejos “acena”) escavam e circulam no lodo.

Os animais da espécie Minuca vocator vivem, literalmente, no sedimento. Engolem lama, separam matéria orgânica como alimento - e, inevitavelmente, ingerem também microplástico, isto é, partículas de plástico com menos de 5 milímetros. Esses fragmentos podem provir de embalagens degradadas, fibras têxteis, desgaste de pneus ou produtos cosméticos e tendem a acumular-se sobretudo em zonas costeiras e em ecossistemas de mangal.

Perante este cenário, uma equipa internacional da Universidad de Antioquia, da University of Exeter e do consórcio de investigação CEMarin procurou perceber: o que acontece, ao certo, a esse microplástico depois de entrar no organismo dos caranguejos? Fica retido tal como está ou sofre transformações adicionais?

Experiência com plástico fluorescente: como foi conduzido o estudo

Para responder, os investigadores instalaram cinco parcelas experimentais no mangal, cada uma com 1 metro quadrado. Durante 66 dias, pulverizaram repetidamente o solo com minúsculas esferas fluorescentes de polietileno, em vermelho e verde. Este material é facilmente identificável ao microscópio e, por isso, é adequado para experiências ambientais controladas.

Passados pouco mais de dois meses, a equipa recolheu amostras de sedimento e capturou 95 caranguejos. Em laboratório, analisaram com detalhe:

  • Quantas partículas de plástico estavam presentes no corpo dos caranguejos;
  • Em que órgãos o plástico se acumulava;
  • Se o tamanho das partículas se alterava ao longo do tubo digestivo.

Os dados foram claros. Em cada animal surgiam várias dezenas de esferas plásticas. Em média, a concentração no corpo dos caranguejos era cerca de 13 vezes superior à do sedimento em redor - o que indica que estes animais funcionam, na prática, como aspiradores de microplástico.

O intestino do caranguejo como trituradora biológica de plástico

A descoberta mais marcante foi a presença, para além de partículas de microplástico intactas, de fragmentos significativamente mais pequenos. Aproximadamente 15% do plástico ingerido já tinha sido moído, no interior dos caranguejos, em partículas ainda mais finas. Este efeito surgiu com maior intensidade nas fêmeas, que aparentam alimentar-se de forma diferente ou mais intensa.

"O trato digestivo dos caranguejos funciona como um triturador natural, que transforma microplástico num pó de nanoescala quase invisível."

A fragmentação ocorre em várias etapas: peças bucais robustas esmagam a pasta de alimento misturada com lodo, o estômago continua a amassar e microrganismos no intestino também contribuem para a decomposição. No fim, os resíduos plásticos tendem a concentrar-se sobretudo na porção posterior do intestino, no chamado hepatopâncreas - um órgão com funções análogas às do fígado e do pâncreas - e ainda nas brânquias.

No máximo ao fim de duas semanas, as partículas trituradas reaparecem no sedimento, porque os caranguejos as excretam. Assim, pedaços maiores de microplástico acabam por dar origem a um “tapete” de nanoplástico, que se dispersa com ainda mais facilidade no ambiente.

O que são partículas de nanoplástico - e porque são tão problemáticas?

Nanoplástico refere-se a partículas de plástico muito mais pequenas do que o microplástico - frequentemente na ordem de poucos nanómetros até algumas centenas de nanómetros. Para comparação, um cabelo humano tem cerca de 70 000 nanómetros de diâmetro.

Partículas tão diminutas comportam-se de forma distinta no organismo quando comparadas com fragmentos maiores:

  • atravessam membranas celulares com maior facilidade;
  • chegam mais rapidamente a órgãos e, potencialmente, até ao sistema nervoso;
  • oferecem uma grande área de superfície para a fixação de outros poluentes;
  • são invisíveis a olho nu e difíceis de remover por filtração.

As consequências para a saúde ainda não estão definidas. Alguns estudos laboratoriais iniciais sugerem que o nanoplástico pode induzir stress celular, favorecer inflamação e ter efeitos semelhantes aos hormonais. No entanto, ainda não existem provas finais que liguem estas partículas a doenças específicas - embora a quantidade de plástico no ambiente esteja a crescer de forma acelerada.

Do lodo do mangal para camarões e peixes - e para a nossa alimentação

Os resultados observados na Colômbia não dizem respeito apenas aos caranguejos. Os mangais são considerados, em todo o mundo, áreas de “berçário” para inúmeras espécies marinhas. Muitos peixes juvenis, camarões e outros invertebrados passam aí uma fase particularmente sensível antes de migrarem para mar aberto.

Se esses animais comerem os caranguejos ou removerem com o bico/boca o lodo contaminado das raízes e do fundo, acabam por ingerir também micro e nanoplástico. Mais tarde, podem entrar nas artes de pesca ou ser criados em aquacultura - e, por essa via, chegar ao mercado.

"Os mariscos estão entre os alimentos em que os especialistas já hoje detetam microplástico com regularidade - e o nanoplástico, muito provavelmente, tem passado muitas vezes despercebido."

Uma estimativa frequentemente citada, divulgada também pelo WWF, sugere que um adulto ingere, em média, até 5 gramas de plástico por semana - aproximadamente o peso de um cartão de crédito. Uma parte dessa carga chega ao organismo através da água, do ar e de alimentos provenientes do mar.

Até que ponto os caranguejos agravam realmente o risco nos oceanos?

O estudo no Golfo de Urabá mostra, acima de tudo, que os seres marinhos não são apenas vítimas passivas da poluição por plástico. Também alteram ativamente o material: os caranguejos filtram o sedimento, concentram partículas no corpo e fragmentam-nas por processos mecânicos e biológicos.

Neste contexto, os investigadores falam num “efeito de moinho biológico”. Isto significa que o plástico não se espalha apenas por ação das ondas e da radiação UV; passa por uma etapa adicional de “processamento” dentro do sistema digestivo de animais.

Ainda não é claro se este mecanismo piora o problema no conjunto ou se alguma fração do plástico poderá também sofrer degradação química adicional. Contudo, muitos indícios apontam para que o aumento de nanopartículas represente um risco acrescido, precisamente por serem tão difíceis de detetar e quantificar.

O que isto significa para consumidores na Alemanha, Áustria e Suíça?

É pouco provável que estes caranguejos específicos da Colômbia apareçam com frequência no comércio europeu. Ainda assim, a questão de fundo é global. Espécies semelhantes de caranguejos, vermes, bivalves ou peixes podem, em diferentes mares, fragmentar microplástico no trato digestivo. A cada novo saco de plástico, a cada fração resultante do desgaste de pneus e a cada fibra que entra nos esgotos, aumenta a probabilidade de se gerarem nanopartículas.

Quem consome marisco ingere, em muitos casos, partes do sistema digestivo: no camarão, por exemplo, o intestino; em peixes pequenos, muitas vezes, as vísceras completas. É aí que se concentra uma parte importante da contaminação. Ensaios iniciais indicam que eviscerar bem e remover intestino e órgãos pode reduzir a ingestão de plástico - embora não a elimine por completo.

Termos e enquadramento: microplástico, nanoplástico, bioacumulação

Alguns conceitos-chave ajudam a interpretar melhor os resultados:

Termo Significado
Microplástico Partículas de plástico com menos de 5 milímetros, muitas vezes visíveis a olho nu.
Nanoplástico Partículas ainda menores, na escala dos nanómetros, geralmente já invisíveis em microscópios ópticos comuns.
Bioacumulação Acumulação de substâncias no corpo de um organismo quando a absorção é mais rápida do que a excreção.
Cadeia alimentar Sequência em que organismos se alimentam uns dos outros, permitindo que poluentes sejam transferidos e, por vezes, amplificados.

A bioacumulação, em particular, ajuda a explicar porque predadores de topo - como grandes peixes de rapina ou aves marinhas - podem apresentar cargas mais elevadas: ao longo do tempo, consomem muitos animais menores e somam os poluentes presentes nesses organismos.

O que já podemos fazer - e o que a ciência ainda precisa de esclarecer

A investigação no Golfo de Urabá abre novas perguntas: quão comum é este efeito de “trituradora biológica” noutras espécies? Será possível medir nanoplástico de forma rotineira no futuro? E a partir de que níveis surgem riscos relevantes para a saúde humana?

Enquanto não houver respostas sólidas, mantém-se uma abordagem pragmática: reduzir a entrada de plástico no ambiente. Isso inclui medidas simples como evitar descartáveis, separar corretamente embalagens, optar por garrafas reutilizáveis e sacos de pano, ou escolher produtos com menor teor de plástico.

Em paralelo, os investigadores estão a desenvolver métodos para detetar nanoplástico com maior precisão - tanto no mar como em alimentos e no corpo humano. Quanto mais fiáveis forem as medições, mais evidente se torna o papel de animais discretos, como os caranguejos estudados na Colômbia, na disseminação invisível de “pó” plástico.


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